MAX

– Oh pai, levas-me ao futebol ? Solicitava, choramingando, o miúdo, naquele Domingo de “clássico” Esposende vs Monção.
Sem responder ao puto, o progenitor fazia contas de cabeça se os míseros trocados do que sobrava da faina da pesca da véspera, após a compra a fiado dos “Provisórios” no Centelhas, e se terem acabado os “Definitivos”, ainda dariam para o bilhete do seu Esposende S.C..
O mais das vezes, ou entrava à borliú ao intervalo, ou, se queria ver o jogo de início, lá se entretia a fintar a Guarda na peregrinação costumada entre o Repouso e as traseiras do hospital, tentando ”filmá-lo” através das “objectivas” arredondadas do muro de suporte, aqui e ali com as pedras já desensaibradas pela intempérie.
– Pai…levas-me ao Esposende? Insistia Alex, puxando-lhe as calças.
– Cala-te para aí, rapaz. Não tenho dinheiro….
O puto desatou numa choradeira incontida que foi preciso a bênção da mãe para pará-lo.
– Pronto. O teu pai leva-te. – Acalmou-o a esposa, enquanto piscava o olho ao marido a fim de resolver aquele problema bicudo.
– Está calado, rapaz, vamos lá ver se o Porfírio te deixa entrar …
O campo de futebol “Padre Sá Pereira”, aí pelos anos 60, era a terra batida e a saibro, alisado à força de cilindro de granito que sulcava regos deixados pela chuva de Inverno e que asfixiava ervas daninhas e resquícios de juncos das faixas laterais, nos pontapés de canto.
Tinha pouca protecção quer para jogadores e juízes de linha, quer para a assistência. Delimitado por umas quantas barreiras “arquitectónicas” encaibradas e desconjuntadas por suportes de madeira de pinho do pior, fazendo denotar ainda os respectivos nódulos, estes serviam de ameaça quando os resultados ou a claque adversária alteava em demasia a voz. Para os árbitros, poderia ser sinónimo de “justiça de Fafe” se as “provisões cautelares” ou conversações de bastidores não chegassem a bom termo para convencer os juízes no alinhamento do melhor resultado, quando em fim de época se perfilavam subidas ou descidas dos clubes interessados em tal desiderato promocional.
A única bancada do lado poente era escassa podendo albergar menos de uma centena de pessoas, no seu máximo, e já então reservada aos sócios, gente geralmente da finesse pois a maioria ia para a claque do Peão. A Norte, árvores-austrália alinhavam-se para conter a barreira do vento forte que quando soprava fazia desequilibrar a contenda num ou outro balázio mais puxado que dava em golo, levando bola e guarda-redes contrário baliza dentro – quantos golos fantásticos foram marcados à conta da nortada! Para Sul, o muro desalinhado a cal hidráulica tinha várias guritas-olheiros que serviam os borlistas, enganada a Guarda-Republicana que não podia acudir a tudo, e que fazia paredes-meias entre o campo e o hospital, de modo que ninguém morreria por falta de assistência, malgrado as caneladas à mistura e outros mimos de ocasião no adversário, com vista grossa do árbitro. A nascente, funcionava, indistintamente, “superior” e “peão” e era aí onde a “pólvora”, por vezes, se inflamava mais entre as claques mas que quase sempre nos era favorável.
Naquele Inverno, já haviam desaparecido as marcações, a cal virgem, das balizas; nestas últimas, mal se vislumbrava a sua correcta esquadria original pois os rigores da estação já lhes encurvariam ao de leve os postes e a trave rectangulares, sofrendo ainda estas do martírio dos “coices” dos guarda-redes que tentavam sacudir a lama das chuteiras, restando do seu original uma coisa mais ou menos híbrida por se assemelharem agora à dos postes de telefone!
Entrada das equipas.
– Es…po..sendê ! Es…po..sendê ! Es…po..sendÊEEE !
Admirar aquele jeito malabarista do Jaime ao fazer rodopiar o esférico no seu dedo indicador direito, era digno de figurar nos anais circenses do futebol. Mais estranho haveria de parecer, durante o jogo, certas trivelas de alguns dos nossos craques que à força de jogarem descalços na Ribeira ainda estranhavam o luxo das chuteiras!
De olhos esbugalhados, Alex, após esgueirar-se para dentro do campo entre as pernas de dois “Golias” de Góios e das Marinhas, saboreou o melhor dos manjares, se é que os olhos, de alguma forma, também comem, pois essa tarde ficara-lhe indelevelmente na retina.
Nesse Domingo, encheu-se o “Maracanã” da vila para receber uma das formações mais simpáticas do campeonato, o Desportivo de Monção, onde imperavam nomes sonantes para a época tais como Tatá, Viriato e Tareta, entre outros, vestindo camiseta grenat e calção azul. O Esposende S.C., com o seu equipamento alternativo: branco debruado a vermelho.
Jogo disputadíssimo do princípio ao fim e que mediou com o lançamento de vários pombos-correios que seria suposto arribarem até às paragens alto-minhotas, talvez com a mensagem do resultado ao intervalo e mais veloz de lá chegar por este meio, dada à escassez de telefones.
Farol (g.r.), Monteiro, Zé da Vila, Passos, Russo, Pinto, Jaburu, Sotero, Losa, Jaime e Laguna, foram alguns dos craques e os heróis dessa tarde memorável pois inverteram um resultado negativo de 0-2 da primeira parte, num 3-2 final e que deixou a claque ribeirinha ao rubro. E que fantástica a exibição do Sotero e do Jaburu que fariam eclipsar o nosso galáctico CR9.
No final, a aclamação do “Pompa e Circunstância” do lado da bancada rivalizava com o “We are the Champions” do lado do peão e era delirante:
Es…po…sen…dê ….Es …po…sen…dê…Es…po…sen…dêêêêê!
Enquanto o Manel Monção sustentava no ar o Jaburú quase lhe provocando o badagaio pelo apertanço inusitado daquelas manápulas, a tia Micas fazia caretas aos monçanenses e abanando e levantando as saias da frente fazia rir às gargalhada de contentamento o pessoal da pesada dos “lobos do mar”.
Lá em casa, ao jantar desse dia, a fome pareceu menos dolorosa de enfrentar e Alex até teve direito a chupar umas pernas de caranguejo extras para se comemorar feito tão heróico do nosso Esposende S.C.

P.S. Este artigo romanceado pretende ser um preito muito humilde de homenagem a estes e outros jogadores que vestiram com orgulho a camisola do E.S.C.