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Naquela altura, o Brasil como Campeão do Mundo já era.

Os grandes jogos do “Mundialito” disputavam-se agora no “Maracanazinho” da Ribeira, pois os pelados da Central e do Emilinho tinham desaparecido. Em alternativa, restavam os do pinhal “Careca” e Junqueira. O primeiro, perdeu o estatuto por ter envelhecido depressa; o segundo, com “relva” demasiado alta, também não fora homologado.
Com as condições ideais para a prática desportiva e aprovado pela “Federação Internacional de Futebol dos Pobres” – que derivaria mais tarde para a dos “Sem Abrigo” – as disputas futebolísticas inter pares da grande Nação Esposendense disputavam-se então na Ribeira com grandes pelejas ao vivo e com olheiros de todos os quadrantes.
Como clubes federados havia o Norte, o Sul, a Central, o Grémio, o Jardim, a Lagoa, os Solteiros, os Casados e os estrangeirados provindos de um seleccionado de Góios.
A assistência era sempre de conveniência e preparada para participar, no fim de cada jogo, por outros meios e que acabava, o mais das vezes, com uma rusga da GNR alertada para o boxe entre os atletas.

Esta prestigiada “Taça das Nações” realizava-se mais lá pelo Verão e era um tira teimas entre os “uefeiros” pois o domínio na porrada há muito que já estava definido numa hierarquia de valores onde cada um sabia precisamente o seu lugar. O mesmo não se diria nestas peladinhas que tinham como Troféu meia dúzia de escudos ou, numa final mais emocionante, uma nota verde de Sto. António, de vinte escudos, investido por cada seleccionado e cujo garante era um árbitro que apitava sempre conforme as conveniências.
Neste relvado ad hoc apareciam aqui e ali algumas carecadas mescladas por uma e outra protuberância de torrões que tinham a sua utilidade prática pois era de cima deles que se efectuavam os grandes biqueiros directos à baliza e que com a nortada de feição enganavam os keepers adversários contabilizando já o 7 vs 2 dos golos.
As laterais eram delimitadas pelos juncos, a Sul, e uma assistência estática composta de varais de roupa a secar com ceroulas, combinações, cuecas dos mais diversos feitios, lençóis meio rotos e camisolas axadrezadas dos pescadores e que embandeiravam com a ventania. A Norte, pelo rio, mas havia que “pescar” quase sempre a bola quando um daqueles amadores desviava o esférico para além do Salva Vidas. As linhas de fundo acabavam, a Poente, com as rascas e redes de pesca do tresmalho. Para Nascente, a fronteira era constituída pela maioria dos adeptos que arrepiava campo dentro sempre que o esférico rondava a baliza.
Na alfândega e de prevenção, estava sempre um guarda-fiscal pois não era a primeira vez que o dinheiro em disputa tinha de ir parar ao Lázaro ou ao Fonseca pois aparecia sempre um ou outro vidro partido, pelo excesso de zelo nos balázios que voavam alto de mais para os lados da matriz.
Quanto às balizas, não precisavam de traves e postes pois eram formadas por dois calhaus que encurtavam sempre que a bola andasse no outro lado do campo. O pior era saber se era golo ou não quando a biqueirada fazia subir em demasia a bola de couro acima do guardião. Competia ao árbitro fazer a respectiva homologação, dependendo da altura do guarda-redes que quando não chegava à bola por alto, agachava-se de propósito.
Começava aí a confusão.
Os craques, que não se distinguiam pelos respectivos equipamentos – havia lá carcanhóis para o efeito! -, diferenciavam-se mais pelos capados calejados do andar ao mar, sendo que a maioria nem precisava de chuteiras, era a pé descalço e com as bainhas da calça da perna direita arregaçadas até meia canela. Uma única excepção, os do Jardim, constituídos por gente fina do respectivo Largo dos Peixinhos e que não abdicava dumas chuteiras, talvez em segunda mão, e dos equipamentos amarelos e azuis. Outra “loiça”, convenhamos.
Todavia a “negra” era quase sempre disputada pelos do Norte e pelos do Sul que convidavam sempre algum reforço “estrangeiro” perito de jogador e polícia militar ao mesmo tempo.
No frenesim do Jogo:
– Passa, “Pirata”, f…-.., dá cabo dele…- Berrava o “Mouco”.
– Olha aí, mete-lhe a perna, c…… – Bicava-lhe o “Passarinho”.
– Chuta, agora …(?)…! Vai pró Fão, lazarento! – Desiludia-se o “Quim Tripas”, perante o petardo que guinava a “redondinha” para Sudoeste.
Entretanto, na assistência, afinavam os mais novos:
– “Nor…te, Nor…te, Nor…te…” – alteava a voz a canalha do S. João.
– É penalty, Sr. árbitro – Arranhava o “Gatinho” depois de um drible em que pôs os olhos em bico ao “Lunetas” e foi travado em plena área pelo “Arrancas”.
– Foi nada, foi prá piscina…- Sentenciou o Nélson ourives.
– Meu filho da p… de ladrão, estás comprado, seu “libra de latão” – arreganhava os dentes o avançado “felino” do Sul, cuspindo mais meia dúzia de impropérios a todos os ourives da região e tentando levantar-se apoiado no “Saganito”, após umas esfregadelas de ocasião nas canetas esfoladas.
O final do jogo era sempre contabilizado a olho – relógios, quem os tinha? – e conforme o avolumar do resultado que andava muito próximo do do Hóquei em patins. Scoor que não ultrapassasse meia dúzia de golos de lado a lado não era resultado que se visse! Havia algumas excepções quando o CR9 de uma das equipas ficava em K.O. técnico por uma dúzia de rasteiras e bloqueamentos reiguebísticos e sub-reptícios mas que, à falta de enfermeiro de ocasião, em retaliação, punha quase o fim à contenda pois agora já se jogava a outros jogos de força. Se a coisa ficava meio feia, era escorraçada, à pedrada, a equipa forasteira, para além daqueles limites geográficos. Mais tarde, esta prometia vingar-se nos “Jogos da Amizade”, agora no campo dos do Sul, junto ao estaleiro.
O banho forçado era nas Escadinhas com uns mergulhos de ocasião.
Destes seleccionados sairiam alguns para o Esposende S.C. e outros para clubes de maior prestígio.