Sei que pareço um ladrão…
Mas há muitos que eu conheço
Que, não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.

Enquanto o homem pensar
Que vale mais que outro homem,
São como os cães a ladrar,
Não deixam comer, nem comem.

Eu já não sei o que faça
P’ra juntar algum dinheiro;
Se se vendesse a desgraça
Já hoje eu era banqueiro.


Bate a fome à porta deles
E é lá mais mal recebida
Do que na casa daqueles
Que a sofreram toda a vida.


Entre leigos ou letrados,
Fala só de vez em quando,
Que nós, às vezes, calados,
Dizemos mais que falando.


Quando te vês mal, e dizes
Que preferias a morte,
Pensa que outros menos felizes
Invejam a tua sorte.


Vemos gente bem vestida,
No aspecto desassombrada;
São tudo ilusões da vida,
Tudo é miséria dourada.

COLABORAÇÃO: ANTÓNIO PINTO
Anúncios